quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meu filho, meu sucessor. Será?

De um modo geral, todo pai gostaria ser sucedido por seu filho. Porém, a vida traz surpresas e é preciso saber lidar com os diferentes cenários. Vamos tratar aqui de algumas situações relacionadas à sucessão na administração de empresas familiares nas quais o cenário não é exatamente o esperado.



Fonte: HSM

1ª. Os pais tinham, realmente, o desejo de que o filho (já na faculdade) viesse a sucedê-los, mas queriam respeitar sua escolha. Por duas ocasiões trouxeram o tema à mesa. Numa delas disseram que gostariam que o jovem avaliasse a possibilidade de trabalhar na empresa, deixando a porta aberta; na outra simplesmente expressaram a opinião de que ele deveria decidir o que queria fazer.

A reação do filho foi inesperada nos dois momentos: na primeira disse que os pais estavam forçando seu ingresso nos negócios da família e na segunda que não mostravam interesse em que ele viesse a sucedê-los. Caramba, mensagens contraditórias!

2ª. Numa outra conjuntura, os negócios da família estavam indo muito bem, contudo, o líder já estava ficando cansado, perto dos 75 anos, e gostaria de curtir a vida. Contratou uma consultoria internacional e iniciou um processo de escolha com base no preparo, capacidade e perfil, envolvendo filhos e sobrinhos.

Esse processo durou dois anos e finalmente um dos filhos foi escolhido e a decisão respeitada pelos demais “concorrentes”. A novidade foi que o escolhido, que já exercia cargo de vice-presidente há anos, no momento seguinte comentou que estava surpreso com a demanda da nova posição: seus dias haviam encurtado, os fins de semana foram comprometidos e o estresse aumentou. O processo foi perfeito e o escolhido percebeu a diferença entre estar próximo e ser o ator principal.

3ª. Exemplificando algo que acontece com muita frequência, o pai havia sucedido o fundador, começando a trabalhar na indústria metalúrgica aos 14 anos, e queria que seu filho fizesse o mesmo. O jovem frequentava a faculdade de engenharia pela manhã e à tarde seguia para a empresa. Tudo parecia perfeito, mas, nos bastidores, o rapaz confidenciava que não queria desgostar os pais, porém, não era o seu desejo. Ao se formar, não teve saída. Tomou coragem e abriu o coração com os pais, que o entenderam e respeitaram seu desejo: o filho queria ser artista plástico.

4ª. Podemos descrever, ainda, uma condição onde o fundador entendia que era chegada a hora da sucessão. Escolheu, então, um dos quatro filhos cujas habilidades condiziam com a posição de presidente da empresa. Comunicou os executivos e fixou a data. O escolhido, jovem brilhante e impetuoso, não esperou e começou a divulgar as medidas que tomaria após sua posse, contrariando os interesses de alguns executivos, os quais passaram a agir nos bastidores, culminando com a não efetivação da sucessão. O fato ocorreu por mais duas ocasiões sem sucesso.

Outro fator que minou o processo foi, por incrível que pareça, o ciúme do pai ao imaginar que o filho poderia, em alguns aspectos, ter mais sucesso que ele. O caso foi dramático e o escolhido foi buscar o seu caminho tendo sido muito bem-sucedido em outra atividade empresarial. Restou a opção do outro filho, mais discreto e cauteloso, pois as duas irmãs estavam fora da linha de sucessão na gestão; uma morava nos Estados Unidos e tinha carreira acadêmica e a outra era casada com um industrial bem sucedido e dedicava-se à filantropia.

Todavia, algo estranho aconteceu na intimidade e, certo dia, iniciada a reunião com a diretoria, o jovem sucessor, ao adentrar a sala foi surpreendido com uma ação intempestiva do pai expulsando-o com termos inexplicavelmente grosseiros. A empresa foi vendida e os filhos herdaram o que lhes era de direito e até hoje ninguém sabe o que ocorreu!

Podemos tirar alguns ensinamentos desses quatro cenários diferentes:
• As relações não podem ser binárias, as emoções habitam o inconsciente, influenciando decisões e reações familiares e empresariais;

• Dar espaço e permitir escolhas sempre é um bom caminho;

• Não exacerbar reações ao inesperado, agindo com cautela, inteligência e compreensão;

• Ter orgulho dos descendentes habilidosos. Só assim o legado será perpetuado;

• Toda decisão sempre tem dois lados



Por: Carlos Alberto Gramani (consultor em governança familiar e family office) e Tânia Galluzzi (jornalista)

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